Sinto da falta da inocência, da vida
simples, dos meus chinelos havaianas, da cara lavada. Sinto falta do calor da
terrinha, da pré-escola. Saber ler e escrever, sem gaguejar, naquele tempo
era luxo. E eu era a oradora da turma, a rainha do milho, a fadinha da peça
teatral. Sinto falta das minhas amigas, de Clarinha, daquele pé de manga e de
pegar “soldadinhos” nas árvores.
Tenho saudades do tempo em que ser eu mesma era orgulho, independência e
verdade. Porque esse mundo de gente grande, de hipocrisia e de homens de terno,
definitivamente, não é pra mim. Sinto-me por fora.
Às vezes, quando percebo a falta de dinâmica na vida e quando a
repetição do cotidiano me atinge de tal maneira que me dá vontade de chorar,
tenho vontade de ir embora para um lugar onde ser o que sou não signifique ser
tapada. E esse lugar existe: está no meu passado. Mas para lá, eu não posso
voltar. O jeito é fazer força. O jeito é aceitar a vida tal como ela é no
presente: na terrinha fria e lotada desses homens de terno.
Quero poder ser honesta, assim como eu era lá atrás, sem que me julguem
por isso. Quero o que é certo, mesmo que eu me prejudique. Quero que me
compreendam e que saibam que faço o melhor para ser o melhor que posso. Não
adianta eu ficar me comparando com os outros. Deus me fez do jeito que fez e
aceito isso.
Não sou a mais inteligente, a mais bonita, a mais popular, a mais
correta. Não sou oradora de nada e não invento mais papéis. O presente não me
permite isso. Sou, muitas vezes, impulsiva, ansiosa e chata. Mas sempre tento
ser o melhor que eu posso ser.
Fiz muitas promessas: uma delas diz respeito à minha profissão. Não irei
contra as minhas convicções. Decidirei sempre pelo que entendo justo e correto.
Para mim, a maior lei de todas é a que diz: "Não faça aos outros o que
você não gostaria que fizesse a você." A norma é simples, de direito
natural, de inspiração divina.
Quem sabe agindo assim, o mundo não pareça tão estático e cinza, tão
cruel? Quem sabe eu consiga transformar, com os meus atos, o frio de hoje no calor
daqueles dias, lá na terrinha?!
UM GRANDE E NECESSÁRIO “PS”
Preciso escrever esse “post scriptum”. Porque depois que reli esse meu
último texto, ele me pareceu um tanto estranho. Eu não quis dizer que sou
daquele tipo de pessoa que idolatra o passado, idealiza o futuro e não sabe
viver o presente. Não é isso.
Na realidade, é o extremo oposto. Estou dizendo que tenho saudades da
minha infância, do tempo em que eu não tinha consciência nenhuma do sentido da
vida, como ela é, da forma como a enxergo hoje. E justamente por sentir tantas
saudades de uma época, é que, faço as minhas críticas aos dias de hoje, mas não
deixo de valorizar cada um deles. Porque, eu bem sei que o futuro é incerto e
que, provavelmente, ao passar dos anos, cada vez mais, em progressão
geométrica, tomarei mais e mais consciência dos vários significado da palavra
“vida”.
Vejam bem: não é pessimismo. Não espero que a vida piore a cada dia que
passa, mas é fato que cada dia, eu me tornarei menos e menos inocente. E a
inocência é um prazer, que não valorizamos como tal.
O que eu espero de verdade? Espero que mesmo me tornando mais crítica e
menos inocente, que eu aprenda a lidar com o mundo.
O que vivo hoje será passado no futuro. E sim, eu sentirei falta do
presente, dos dias de hoje, por nostálgica que sou, assim como sinto falta do
passado, da minha infância. Mas naquela época, assim como todo mundo da minha
idade, eu não tinha como dar o devido valor a vida. Faltava-me todo
discernimento sobre esse assunto. E por tomar um pouquinho de consciência de
mim e da vida aos vinte e poucos anos, sinto falto do passado, mas valorizo o
presente, porque um dia, no futuro, ele será o objeto do meu saudosismo. Isso
me faz dar muito importância a cada segundo dos meus dias.
E espero, de verdade, que a maturidade, que ainda não me atingiu,
me traga sossego no futuro para aceitar o que não é modulável no mundo. Dá para
entender?