O
domínio do mundo são minhas palavras. Não, isso é mentira. Eu não sou nem um
sopro de vida. Sou uma respiração apertada de um asmático, a respiração
insuficiente de um doente. E escrever não me basta. Nada que eu faço tem me
bastado. Nem a minha escrita sagrada. Escrever era como se eu vivesse em Passárgada.
Era viver em outro mundo que não o meu.
Porque aqui nesse mundo, eu não estou feliz. E lá a existência era uma
aventura. O escrever me dava liberdade,
eu poderia ser qualquer uma, ter um grande amor, muitos amigos, estar numa
festa como uma princesa criança, numa praia, lotada de coqueiros, com o sol
tocando a minha pele daquele jeito leve que somente o sol consegue tocar. Mas
estou presa na minha cama e com algemas. Aprisionada. Sufocada pela dor do
mundo. A minha própria dor. A dor de outros. Todas as dores do mundo me doem o
tempo inteiro. Tenho um cérebro morto e um coração, vermelho escarlate, vivo de
dor. A dor que sufoca. Que dor. Quanta dor. Ajuda? Não consigo. Ainda tenho
bilhões de lágrimas tristes aqui dentro dessa alma quase morta e desse corpo
vivo. Aqui está a minha última força: escrever para me esquecer desta dor por
um segundo e lembrá-la no segundo posterior. Não procuro mais respostas para maldades gratuitas. Não faço perguntas, com exceção de uma: por que este mundo é
tão ao contrario? Embora eu saiba que ninguém jamais poderá me dar essa
resposta de forma correta, eu a refaço por vários dias. Se Deus existe, só Ele sabe.
Mas ainda assim, não me daria a resposta. Eu não sou privilegiada. Não sou mais
do que ninguém. Ele me trata igual a todos. E todos ficam sem resposta. Escrevo
quase sem fé. Ela está escorregando das minhas mãos e eu tento a todo custo não
deixá-la ir. E por isso que tenho desespero: vou-me embora para minha cama,
porque não tenho passagens para Passárgada. Não sou amiga de nenhum rei.
Andréa Buschinelli - 07 de julho de 2014

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